Encontrei meu primeiro amor numa tarde quente de primavera.
Não nos víamos desde o ensino médio.
Ela tinha se mudado para Barcelona para estudar filosofia. Eu fui para outro caminho, outra cidade, outra vida.
De vez em quando, trocávamos mensagens educadas. Curtidas ocasionais. Pequenos sinais de existência.
Nada que realmente significasse alguma coisa.
Ou pelo menos era isso que eu pensava.
Até vê-la de novo.
Ela estava diferente.
Mais segura.
Mais bonita de um jeito impossível de ignorar.
A franja havia crescido, o sorriso parecia mais leve e havia algo no olhar dela que eu não lembrava — ou talvez sempre estivesse lá, e eu nunca tivesse percebido.
É engraçado pensar em tudo isso agora.
Principalmente enquanto sinto a respiração quente dela contra meu pescoço e seus dedos apertando minha camisa como se quisessem recuperar anos inteiros em poucos minutos.
Poucas horas antes, estávamos sentados numa praça, cervejas geladas nas mãos, conversando como se o tempo não tivesse passado.
Rindo.
Relembrando.
Nos olhando por tempo demais.
Agora, estamos trancados no banheiro minúsculo de um bar qualquer, com paredes gastas e uma porta fina demais para a quantidade de tensão que existe ali dentro.
Ela me puxa pela gola.
Sem hesitação.
Sem delicadeza.
Como se já tivesse decidido aquilo muito antes de mim.
— Engraçado... — ela murmura perto da minha boca. — Eu achava que tinha te esquecido.
Meu sorriso sai curto.
Rouco.
— E esqueceu?
Ela me beija em resposta.
Um beijo urgente.
Daqueles que parecem mais cobrança do que carinho.
Meus dedos deslizam pela cintura dela sem cerimônia, sentindo o tecido fino do vestido vermelho, a pele quente por baixo, a pressa dos nossos corpos tentando acompanhar tudo aquilo.
Ela solta um suspiro baixo contra meu ouvido.
O tipo de som que desmonta qualquer raciocínio.
— Não sei como passei tanto tempo sem isso — ela sussurra.
E eu penso exatamente a mesma coisa.
Como foi possível viver tantos anos sem esse toque?
Sem essa tensão.
Sem esse tipo de química que faz o ambiente inteiro desaparecer.
O mundo lá fora continua existindo.
Mas ali dentro?
Só existe ela.
Seu perfume.
Sua boca.
Seu corpo se aproximando como se não quisesse deixar espaço para mais nada.
Quando a beijo no pescoço, ela inclina a cabeça devagar e fecha os olhos.
E naquele segundo, eu entendo que algumas pessoas nunca deixam completamente a nossa história.
Elas só esperam o momento certo para voltar.
O som de alguém batendo à porta nos arranca da cena.
Uma batida impaciente.
Depois outra.
Ela ri, ainda ofegante, encostando a testa na minha.
O cabelo bagunçado.
O batom levemente borrado.
Linda de um jeito perigosamente real.
Tentamos nos recompor diante do espelho rachado.
Ela ajeita o vestido.
Eu passo a mão no cabelo.
Nenhum dos dois parece muito convincente.
Quando saímos, evitamos olhar para a pessoa esperando do lado de fora.
Como se isso de alguma forma tornasse tudo menos óbvio.
Ela continua agarrada ao meu braço enquanto voltamos para a rua.
As pernas ainda um pouco trêmulas.
O rosto corado.
O sorriso impossível de esconder.
E enquanto a primavera aquece a cidade lá fora, só consigo pensar em uma coisa:
talvez alguns amores nunca acabem.
Só aprendam a esperar o momento certo para incendiar de novo. 🔥
