Laura sempre chegava tarde em casa. O trabalho, o trânsito, as tarefas… tudo a deixava exausta. Mas naquela noite, quando saiu do elevador do 14º andar com as sacolas de compras, ela percebeu algo diferente: a porta do 1408 estava aberta, e alguém estava montando móveis no corredor.

Era ele. Rafael.
O novo morador.

Ele estava ajoelhado no chão, montando uma mesa pequena. A camiseta preta colava ao corpo, e a luz amarelada do corredor realçava o contorno dos braços fortes. Quando percebeu que Laura se aproximava, levantou o rosto — e aquele olhar foi suficiente para fazê-la esquecer as sacolas pesadas.

— Opa, cuidado aí — disse ele, rápido, segurando o braço dela quando uma das sacolas ameaçou escorregar. O toque foi leve, porém quente, firme o bastante para provocar um arrepio imediato.
— Eu… obrigada — respondeu ela, tentando manter o equilíbrio e a compostura.

Rafael se levantou devagar, ainda segurando o braço dela como se quisesse prolongar o contato.
— Desculpa pelo caos. Mudei hoje e estou tentando deixar tudo minimamente habitável.
— Bem-vindo… vizinho — disse ela, soltando um sorriso tímido.

Ele sorriu também, mas o sorriso dele tinha algo a mais: intenção. Interesse. Um tipo de provocação silenciosa que ela entendeu na hora.

Nos dias seguintes, eles se cruzaram várias vezes.
No elevador.
Na garagem.
No corredor, com ela segurando sacolas de mercado e ele chegando do treino.
Sempre com olhares demorados demais.
Sempre com um comentário que ficava pairando no ar, cheio de duplo sentido.

Até que, numa quinta-feira chuvosa, alguém bateu na porta dela.

Três batidas suaves.
Laura abriu — e era Rafael.

Ele estava de moletom cinza, cabelo úmido do banho, segurando uma garrafa de vinho tinto.

— Estava abrindo essa garrafa… e pensei que seria um desperdício tomar sozinho — disse, apoiando o ombro na porta como se já fosse íntimo do lugar. — E eu não conheço ninguém aqui melhor do que você.

O coração dela deu um salto.

— Então você quer… entrar? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.
— Quero — disse ele, com um sorriso lento que dizia muito mais do que palavras.

Laura abriu espaço e ele entrou.
O perfume dele se espalhou pelo apartamento, quente, amadeirado, viciante.
Eles se sentaram no sofá.
Conversaram sobre tudo: viagens, músicas, trabalho, o motivo da mudança dele. A conversa fluía tão naturalmente que Laura sentia como se o conhecesse há anos.

Mas havia algo subterrâneo ali.
Um olhar.
Uma respiração que falhava de vez em quando.
Uma distância entre os dois que diminuía a cada minuto.

Quando ela inclinou-se para pegar a taça na mesa, Rafael colocou a mão sobre a dela — gesto simples, mas que fez o ar inteiro do apartamento mudar.

— Laura — disse ele, a voz baixa, rouca. — Se eu disser que tenho pensado em você desde o dia em que nos encontramos no corredor… isso seria estranho?

Ela engoliu seco.
— Seria estranho se eu não tivesse pensado a mesma coisa.

Rafael sorriu, aproximando-se mais, o nariz tocando o dela, o hálito quente, o corpo quase encostando no dela.
— Então acho que estamos alinhados.

O beijo veio devagar, mas profundo. Ele segurou o rosto dela com uma mão grande e quente, puxando-a gentilmente para mais perto. Laura agarrou a camiseta dele, sentindo a respiração acelerar, o coração bater contra o peito como se pedisse mais.

Rafael a puxou para seu colo, e ela foi sem resistência.
O vinho ficou esquecido na mesa.
Os beijos ficaram mais intensos, mais famintos, os corpos se encaixando como se já tivessem ensaiado aquilo antes.

Quando se afastaram pela primeira vez, ambos estavam ofegantes.
Rafael passou o polegar nos lábios dela, como se estivesse memorizando o momento.

— Eu queria que isso acontecesse — disse ele, olhando-a como se ela fosse a única pessoa no mundo.
— Eu também — confessou ela, ainda sentindo o corpo inteiro vibrar.

Ele sorriu, encostando a testa na dela.
— Laura… essa noite não termina aqui.
— Eu sei — respondeu ela, sorrindo também, já entregue.

 

E realmente não terminou.